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E se tiver um bully em casa?

Opiniões de pais e professores sobre a tipificação do bullying como crime de violência escolar em Portugal:

"Os castigos têm de ser mais severos. Com sanções, acredito que as crianças pensem antes de agir." Miguel Costa dá aulas de Educação Física na Escola Secundária de Francisco Franco, no Funchal, e concorda com a recente decisão de tipificar o bullying como crime público e de violência escolar. O professor defende que "nos espaços educativos da televisão, devia-se informar sobre esta decisão de agora ser crime e quais as penas a que o agressor está sujeito".

Os maus tratos físicos ou psíquicos continuados por um estudante sobre outro são considerados, desde há duas semanas, crime de violência escolar. O governo aprovou a proposta e Isabel Alçada esclareceu que a intenção é, também, que "a criação do novo regime de violência escolar produza um efeito dissuasor, contribuindo para a segurança do ambiente escolar". Semelhante ao crime de violência doméstica, as agressões - como ofensas sexuais, castigos corporais e privações da liberdade - que aconteçam nas escolas são punidas com um a cinco anos de prisão. Além disso, a medida prevê que alunos menores, entre 12 e 16 anos, sofram medidas tutelares educativas, já que são inimputáveis para efeitos da lei penal.
Para João Tilly o problema do bullying nas escolas não se resolve com medidas tutelares educativas ou penas de prisão. O professor do Agrupamento de Escolas de Seia atira para a direcção dos estabelecimentos a responsabilidade de "tomar conta dos alunos" como forma de "evitar situações de violência".

"O problema deve ser resolvido a montante. É preciso perguntar porque razão um miúdo passa a vida a infernizar o colega do lado. Alguma vez foi chamado pela direcção da escola? Os pais já foram convocados?" O problema, acredita o professor, existe porque "as direcções das escolas ignoram o comportamento destes alunos mais problemáticos".

Sandra Tavares não é defensora desta ideia e, pelo contrário, concorda absolutamente com a nova lei. A professora do Externato D. Dinis, em São João da Madeira, explica que este é um estabelecimento "com situações difíceis entre os alunos". Essa é uma das razões para afirmar que é completamente a favor da tipificação. Há alunos que são maus e acredito que devem ser ensinados desde o início". No entanto acrescenta: "É preciso ter atenção, porque nem todos os casos de agressão são bullying, mesmo que muitas vezes, esses actos sejam o começo de tudo."
O professor Miguel Costa, por outro lado, não teme que existam enganos: "Para ser considerado bullying, a agressão tem de ser repetida e provocada. Se não for um abuso continuado, não acredito que se prove ser crime de violência escolar." É também o que pensa a mãe e professora de Educação Especial da Escola Básica Bartolomeu Perestrelo, no Funchal. Rosa Gomes dá aulas a estudantes invisuais e revela que no caso dos seus alunos nunca teve conhecimento de nenhum problema "porque eles são protegidos por todos, inclusive pelas crianças". Defende, porém, que existem muitas situações de agressão nas escolas actuais: "A medida já devia ter sido imposta há mais tempo. Falta disciplina nas escolas - os professores e auxiliares, perderam a autoridade." Rosa Gomes concorda com as novas medidas de coacção, mas acredita que a prevenção e a sensibilização, dentro do meio escolar, tem de ser trabalhada: "Fala-se em droga, alcoolismo, sexualidade e poluição, que são importantes, mas não se aborda o bullying. Nunca vi um cartaz sobre violência escolar em nenhum estabelecimento".

A professora lembra que muitas famílias não têm capacidade para lidar com o problema e, por isso, "devia haver um gabinete do aluno, onde o agredido pudesse falar e o agressor aprender. As escolas têm psicólogos, mas estes assuntos não são debatidos".

A família é, de facto, grupo de referência importante na formação da personalidade, além de ponto de partida para resolução destes problemas - tanto para vítimas como para agressores. Tânia Paias, psicóloga e directora do PortalBullying, explica ao i que é em casa que se notam muitos dos sinais: "É preciso ter atenção se, por exemplo, as crianças começam a trazer muitas coisas para casa. Esta atitude pode ser um sinal de que pratica bullying." Se, por outro lado, o aluno sofrer uma grande alteração de humor ou "ficar mais inibido do que o normal, pode estar a ser vítima de um colega de escola", conclui a psicóloga.

Manuela Marques Lopes, professora da Escola Sá de Miranda, em Braga, concorda com a tipificação do bullying como um crime público. "Um dos grandes problemas da violência escolar é o facto de as vítimas raramente apresentarem queixa por medo de represálias. Tratando-se de um crime público, qualquer pessoa o poderá denunciar", justifica a professora, acrescentando que "aos 18 anos os alunos devem ser responsabilizados pelos seus actos". Questionada sobre se a medida terá um efeito dissuasor, a professora de português/ francês foi lacónica: "Acredito que haja uma diminuição da violência. Mas nunca total. As escolas são microcosmos, reflectem muito do que são as sociedades. Cá fora, os comportamentos violentos não se alteram porque existem cadeias." 

por Maria Catarina Nunes, Publicado em 09 de Novembro de 2010
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