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Portugueses são mais preocupados com o bullying no trabalho

Novo relatório revela que a violência laboral está a aumentar na Europa. Faltam estudos e respostas nacionais. Portugueses estão insatisfeitos com as relações laborais
por Marta F. Reis , Publicado em 02 de Fevereiro de 2011

Portugal é o segundo país europeu depois da Turquia onde existe uma maior preocupação com o bullying e o assédio no trabalho. Um relatório publicado ontem pela Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho (OSHA) revelou que a violência laboral está a aumentar na Europa. Entre 5% e 20% dos trabalhadores sentem--se afectados por terceiros, sobretudo nos sectores da saúde, acção social e educação.

O relatório reúne os últimos estudos sobre intimidação, bullying e assédio no trabalho para os 27 estados-membros. A sondagem mais recente foi conduzida na Primavera de 2009 junto de 28 649 gestores e 7226 profissionais de saúde de 31 países, Portugal incluído. Mais de metade dos portugueses inquiridos admitem estar preocupados com a violência no local de trabalho, uma percentagem que só é ultrapassada pela Turquia. Na cauda da tabela surgem Finlândia e Suécia. Apesar de os autores sublinharem a falta de informação comparável sobre a incidência do bullying laboral e as diferentes metodologias disponíveis, o levantamento recorda dados anteriores a 2000 que colocam Portugal com uma das maiores percentagens de casos alguma vez documentadas. Já num estudo de 2007, o país surge mais abaixo na tabela, com menos de 5% de inquiridos a admitir ser vítima de bullying, valor dentro da média europeia. Carlos Neto, especialista em bullying da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa e autor do estudo publicado há 11 anos, recorda a comparação do bullying laboral em Portugal e no Reino Unido. "Na altura a grande diferença que encontrámos foi que em Portugal a violência era mais entre pares, enquanto no Reino Unido era canalizada sobretudo para os superiores." O investigador nota que ainda assim, apesar de existir uma boa sensibilização no país para o problema da violência continuada entre pares, deveria haver um novo diagnóstico da situação laboral como se procurou fazer para o ambiente escolar. "Nas grandes empresas estou convencido de que existem já mecanismos de controlo. Mas nas pequenas e médias ainda haverá muitos trabalhadores a sofrer."

Apesar de a preocupação ser generalizada na Europa, na sondagem mais recente apenas 25% dos gestores admitiam ter implementado medidas para lidar com a violência laboral. O estudo defende ainda que a resposta legal na maioria dos países é inadequada. Por detrás do bullying, os autores identificam quatro problemas comuns: gestão ou liderança incompetente, ambientes de trabalho negativos, uma cultura permissiva em relação ao assédio e maior exposição social das vítimas. Paulo Pereira de Almeida, coordenador do Observatório Português de Boas Práticas Laborais (OPBPL) acredita que esta classificação a nível europeu deve merecer uma reflexão imediata das autoridades. "A acção inspectiva no trabalho não tem focado muito a qualidade", sublinha. O 3.o Estudo Sobre o Estado das Relações Laborais em Portugal, também publicado ontem pelo OPSPL, revela que 43,8% dos trabalhadores portugueses classificam como negativo o estado das relações laborais no país, mais 7,3% do que há um ano. Quando se focam na empresa onde trabalham, há melhorias: 17,8% traçam um quadro negro, menos do que os 25,8% documentados em Janeiro de 2010. Para Paulo Pereira de Almeida há um factor estrutural por trás do retrato nacional. "Portugal é um dos países onde existe uma pior organização das funções no local de trabalho. As situações dúbias potenciam o assédio moral."

Também o consumo crescente de antidepressivos na sociedade e as baixas psiquiátricas poderão ser reflexo de um mal--estar acima da média europeia. Num trabalho publicado em 2006 o especialista em direito do trabalho debruçou-se sobre o assédio moral, serviços de saúde e acção social. A análise incluiu 742 funcionários de 44 instituições da região de Lisboa e Vale do Tejo e revelou que na base do assédio estão sobretudo situações de abuso de poder, características de personalidade e lideranças inapropriadas. Ainda assim, apenas um terço da amostra conhecia a expressão assédio moral.

Fonte: ionline.pt

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