quarta-feira, 21 de julho de 2010

Os perigos na internet

Reportagem do site Terra, de 21.07.2010, escrita por Ana Cláudia Barros e Mariana Desidério. Retirada às 15:30, com o título:

Intimidação é violência que mais vitima crianças na web

Após falar sobre a popularização do sexting entre jovens brasileiros e discutir a pornografia infantil na rede, Terra Magazine completa a sequência de reportagens sobre infância, adolescência e internet, tratando de um problema cada vez mais recorrente no país: o cyberbullying ou intimidação online. De acordo com a organização não-governamental SaferNet, esta versão virtual do bullying - termo em inglês usado para descrever agressões físicas ou psicológicas, ocorridas reiteradamente, sem motivação aparente - figura, hoje, entre as violações que mais vitimam crianças e adolescentes na internet.
O psicólogo e diretor de prevenção da Ong, Rodrigo Nejm, destaca que esse tipo de violência, quando praticado na rede, ganha contornos ainda mais cruéis e devastadores, em função do alcance que pode atingir.
- O que antes era uma "brincadeira", que já era ofensiva, mas ficava restrita a 20, 30 amiguinhos do colégio, agora, vai para o mundo todo. Outra: fora do contexto da escola, ela tem muito mais um caráter de agressão, porque o porteiro vai rir daquela criança, o amigo do outro prédio vai ver, os amigos de outra cidade vão ter acesso. Uma coisa é fazer uma brincadeira mais agressiva com o colega de classe, por exemplo. Outra coisa é pegar esse momento, filmar, fotografar e publicar online, disponibilizando isso para milhões de pessoas estranhas. Você eterniza a violência, que deixa de ser algo contextual e passa a ser atemporal. É como se fosse um fantasma. A qualquer momento, aquela piadinha, aquela humilhação pode voltar a aparecer na vida do sujeito.
Rodrigo explica que muitos adolescentes não se dão conta de que estão praticando cyberbullying. "Eles acham que é apenas uma piada. Mas é importante lembrar que é exatamente equivalente à calúnia e difamação, injúria. Como não são adultos, não cometem crime, mas cometem ato infracional. O que procuramos mostrar nas nossas campanhas de orientação é que a internet não é uma terra sem lei. Ou seja, tudo que você fizer, que fira o direito de alguém, é tão errado quanto realizar o mesmo ato em uma praça pública, em um shopping, em qualquer lugar".
Apesar de considerar que a educação é melhor do que a punição, Nejm vê com bons olhos a iniciativa de tribunais que têm condenado, por danos morais, pais de menores de 18 anos, apontados como autores de bullying, tanto no mundo real quanto virtual. Ele, entretando, faz uma ponderação:
- Embora tenha um efeito pedagógico, a punição dos juizes às famílias não adianta, se não tivermos um trabalho anterior. A escola tem papel central na questão. Ela precisa interferir no processo, para que a a garotada saiba das consequências antes de pagar o preço. O índice de cyberbullying diminuiria muito se os colégios tratassem o tema com mais seriedade e se colocassem como agentes de promoção do uso responsável da internet.
No segundo semestre do ano passado, a Safernet Brasil ouviu 2345 estudantes, com idades entre 5 e 18 anos, em São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Paraíba, Maranhão e Pará. Trinta e quatro por cento dos entrevistados (797 alunos) afirmaram que tiveram algum amigo agredido, humilhado ou chantageado pela internet.
 
Dor silenciosa
A mesma sondagem mostrou que apenas 21,49% comunicam aos pais, quando se sentem agredidos ou em perigo na internet. A maioria (38,89%) somente bloqueia o contato e denuncia virtualmente. Cerca de 14% disseram que desligam o computador e tentam esquecer. O restante procura soluções, como pedir ajuda a amigos ou irmãos e tentar descobrir o autor da agressão para tirar satisfação.
- Do ponto de vista psicológico, o cyberbullying é muito sério. Há adolescente que tira a própria vida após ser vítima desse tipo de humilhação. Alguns estudos revelam que grande parte dos atiradores nas escolas - algo que acontece muito nos Estados Unidos - era vítima de intimidação, online ou offline. Isso gera uma série de problemas. Bombardeada por tanta violência, a vítima tem, por exemplo, dificuldade de estabelecer novos relacionamentos. Começa a incorporar aquela humilhação. "Ah, realmente, sou o mais chato da escola, sou o mais feio, não sirvo para nada, sou um perdedor".
Nejm volta a destacar que, nos casos de cyberbullying, a perseguição ainda é mais intensa.
- A vítima vai para casa e encontra e-mail na caixa postal com a humilhação. Abre o site de relacionamento e tem um perfil falso com aquela humilhação. Olha o celular e tem uma mensagem com uma foto humilhante. Ou seja: não tem para onde escapar. Não adianta mudar de colégio e de cidade. Isso pode comprometer todo desenvolvimento da sociabilidade, dos estudos, além de apresentar dificuldade para falar em público, insônia, depressão.
Pesquisadora do Laboratório de Análise e Prevenção da Violência (Laprev) da Universidade Federal de São Carlos, Eliane Aparecida Camoanha Araujo, recomenda que a família acompanhe as crianças e os adolescentes de perto e saibam como eles se relacionam pela web. Ela participa de um projeto financiado pelo Ministério da Educação, cujo objetivo é capacitar professores de escolas públicas, ensinando-os a identificar maus-tratos, como bullying.
- Os pais devem saber o que é acessado e, se possível, bloquear alguns conteúdos. Também é importante conhecer a rotina dos filhos, o grupo de amigos e como lidam com problemas, para tentar ver se eles estão se envolvendo com o ciberbullyng, seja como autores ou como vítimas.
Para explicar um comportamento agressivo do filho, o pai e a mãe devem antes olhar sua própria postura, de acordo com Eliane. "Um lar violento acaba ensinando que a violência é uma forma de resolução de problemas ou mediação de conflitos", diz a pesquisadora.

Compactuar também é agredir
Na avaliação do diretor de prevenção da SaferNet, é preciso mudar a concepção dos adolescentes, fazendo com que entendam que compactuar com o cyberbullying é tão pernicioso quanto praticar a violência.
- O ideal seria ter os próprios jovens vigiando, mas isso ainda está distante. As pessoas recebem o conteúdo por e-mail e acham graça. Ficam até com dó, mas pensam: "Não fui eu que fiz" e repassam a mensagem. Quem abre, quem repassa, também está agredindo. Quando você repassa o e-mail ou divulga o site em que alguém está sendo humilhado, você também ajudou a promover a violência porque mais pessoas vão ver, causando mais danos à vitima.

Um comentário:

  1. Achei que vocês iriam gostar desta reportagem:
    http://revistasentidos.uol.com.br/inclusao-social/59/artigo179121-1.asp

    Abração!

    André

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